quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A loja de molduras - 07/02/2017

Naquela loja de molduras com uma bandeira do Uruguai trabalha uma família, são dois filhos: um menino e uma menina. Ele deve ter uns 23 e ela uns 18. Lá dentro se fala aquele espanhol cantado, lindo de Montevidéu (entre eles). Com os clientes é em português. A senhora, uma gorda, alta e de cabelos longos encaracolados, tem uma voz alta, um tom acima do necessário. Mas é uma voz maravilhosa, acolhedora, sensível, a voz perfeita para se escolher molduras. No balcão do caixa fica o filho, estudando matemática e na vitrine está a filha, limpando os vidros dos mostruários de quadros. Atrás da loja, depois de uma divisória baixa, que não chega ao teto, mas cobre a visão, fica o pai. Um senhor baixo, careca e com um tom de voz grave, quase afônico. É ele quem dá a palavra técnica sobre o vidro perfeito, a moldura que cabe, o passe-partout mais indicado. Aquele carpete verde desbotado do chão não imagina o que vai acontecer.

Quando vou buscar meus quadros descubro que mãe havia morrido há 2 semanas. Tinha sido a última moldura escolhida por ela. Onde mais haverão vozes como a dela para me orientar? E todas as outras pessoas com pinturas, fotos, diplomas, camisetas de bandas que ainda precisarão ser enquadradas? Que voz faria a orientação delas? São quadros que nunca conhecerão a perfeição daquela voz aguda, antipática para tudo, mas perfeita para se escolher molduras.


quinta-feira, 19 de maio de 2016

O protesto de Martin Konrotea no festival de cinema


Era uma vez Martin Konrotea, nascido na Ilha de Timbuktu, arquipélago de Ubuntuaka.
Martin faz parte da terceira geração de uma família de artistas de Timbuktu. Seu avô iniciou a família como um dos maiores intérpretes da música típica da ilha, seus tios e pai fizeram carreira como ator, cineasta e músicos, já Martin foi além, ainda adolescente foi para a Europa estudar artes cênicas. Voltando ao arquipélago, fez sucesso ao atuar como protagonista de filme épico baseado em um texto milenar da cultura timbuktuana. O longa-metragem foi traduzido para diversos idiomas e o canal que o produziu fez fortuna em Ubuntuaka com as vendas dos direitos.
Logo vieram os convites para Martin voltar à Europa, onde filmou curtas cult, depois alguns filmes mais comerciais na França, até que chegou à Hollywood! Que sucesso! Martin virou o orgulho de Timbuktu. Era o queridinho dos estúdios! Seu avô até então com fama restrita ao Oceano Índico, se tornou um músico famoso, agora cultuado por músicos pop da Europa, Ásia e Américas.
Martin se tornou estrela, se naturalizou americano, comprou uma casa em Los Angeles, casou-se com uma atriz sueca, teve 3 filhos americanos. Mas seus traços fortes, sempre lembravam a todos sua origem ilhéu. Exótico, chegou a ser indicado ao Oscar quando dirigido pelo grande Robert Smithson.
Em meio aos ups and downs da sua vida artística e pessoal, Martin virou um símbolo intelectual, não só americano, mas dessa mescla cultural que congrega tantos artistas e pensadores vivendo o American Way of Life, talvez ainda a única grande ideologia do século XX em funcionamento.
Martin se divorciou, casou mais 2 vezes, mudou para Nova Iorque, onde conheceu Lisa Belt, uma jazzista low-profile, professora da Macbeth School of Arts, com quem se casou pela quarta vez.
Timbuktu ficou distante, a nova geração já pouco conhecia o outrora símbolo e orgulho do arquipélago, que passava por um momento de caos. O governo havia criado um rombo nas contas, estragando a economia de todas as ilhas de Ubuntuaka, deixando milhares de desempregados, parando a Indústria, atrapalhando investimentos no Turismo e transformando um paraíso em um lugar perigoso e espinhoso para todos, turistas, investidores e habitantes.
Ao mesmo tempo em que assistia ao seu país entrar num caos completo, Martin foi lembrado pelo já consagrado cineasta Udo Strauss, com quem filmou um belíssimo filme em Timbuktu que falava justamente sobre a decadência da ilha, mas com olhar minimalista, discutiu e expôs a hipocrisia do arquipélago elitista e classista, agora mergulhado em conflitos entre ricos e pobres, esquerda e direita, liberais e socialistas. O filme de Strauss toma força pela forma certeira como atinge o alvo, afinal todos querem saber, todos querem entender o caos que vive hoje Timbuktu.
Martin aparece no topo das listas de entrevistados, volta à CNN, BBC, The New York Times.
Exótico!
Maravilhoso!
Atuação impecável!
O filme é indicado ao Grand Prix de Toulouse! Martin Konrotea retoma seus tempos de glória e está de novo nos tapetes vermelhos do Cinema!
Maravilhoso!
Na avant-premiere de Toulouse, Martin e Strauss, estão emocionadíssimos e ufanados de si protestam contra os rumos que sua Ilha de Timbuktu está tomando.
Um jovem ilhéu orgulhoso vê o nome de seu arquipélago no palco do mundo, e pergunta a sua mãe:
- Quem é Martin Konrotea, mãe?
- Um homem que acha que é daqui, meu filho.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Los Angeles de 20/12/2014


Eu vi Blake Lively grávida 
Um mexicano de 4000 anos
De Niro saindo pra andar no parque
Uma atriz no caixa do outlet
O in-n-out no breakfast 
Benicio del Toro e coreanos no Chateau Marmont
Aí já tirei uma foto com um papai-noel negro na La Brea
Que tem a melhor padaria francesa fora da França 
Um Mustang alugado
Um Best Western com vista pra Hollywood sign em Koreantown
Te amo air dry car wash
Los Angeles
See you soon

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Bebês choram em público

Já passava das 18h num ônibus lotado em Berlim, paramos num ponto e uma mãe entra com uma criança de colo, não tinha mais de um ano. Logo que a viagem recomeça, o bebê choraminga e logo dispara a chorar em alto volume. A mãe nervosa em tentar acalma-la me impressiona. Passado um minuto ou menos uma senhora pede falando mais alto do que o choro, que a mãe faça a criança ficar em silêncio, a mãe responde já brava com a intervenção que é impossível um bebê daquele tamanho entender que não deveria chorar ali.

Essa cena comum, porém sempre incômoda, é um verdadeiro tabu. Mães devem fazer seus filhos pararem de chorar em locais públicos, ônibus e aviões? Eu acho que não.

A prova de que isso é um tabu e polêmico é a foto que virou viral publicada hoje no Facebook da cena do professor Sydney Engelberg na Universidade de Gratz em Jerusalém, Israel, com o bebê de uma aluna em seu colo. A história é simples. A mãe do bebê teve de leva-lo a aula, então ele começa a chorar. O professor incomodado com o choro, ao invés de pedir que a mãe saísse da sala com o bebê que chorava e atrapalhava, pegou o bebê e tentou acalma-lo. De uma maneira empática, resolveu o problema do barulho e ao mesmo tempo continuou dando sua aula para todos, inclusive a mãe desse bebê.

O “tabu” do choro do bebê é um problema inédito para quem não tem ou não teve um filho pequeno. Talvez imaginar que um dia já se foi um bebê chorão facilite a compreensão e mantenha mamãe, papai e filhinho tranquilos, convivendo harmoniosamente no ambiente em que estão. Você já chorou, seu filho vai chorar e não há o que fazer. Entre um bebê chorão e um adulto reclamão, fico com o primeiro.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

TOCA RAÚL, ED MOTTA!

Certamente Ed Motta havia tomado um vinho a mais ou um comprimido a menos quando desaguou seu preconceito no Facebook.

O cantor que internacionalmente é aclamado com um grande jazzista está de saco cheio de subir aos palcos (aos melhores do mundo, a propósito) e ouvir uma turminha gritar para ele tocar Raúl. Essa mesma turminha que pede para ele tocar Raúl, se morasse no Brasil não ouviria Ed Motta, ouviria o Lepo-Lepo. Como ouve o Lepo-Lepo lá fora também.

A turminha do Brasil que mora fora, com exceções, é complicada. Quer lembrar do nosso Brasilzão, quer tanto lembrar que não esquece de falar português, não aprende inglês, espanhol, nada direito. E isso irita o Ed Motta. Porque o cara estudou, trabalhou, fez um baita esforço para aparecer na cena internacional e aí aparece uma turminha tomando Skoll e gritando pelo Curíntia. Não tem nada de errado em tomar Skoll e gostar do Curíntia, mas não tem nada a ver com o show do Ed Motta.


Eu adoro churrasco, como uma vez por semana. Já falhei mais de 10 vezes na tentativa de ser vegetariano. E eu gosto mesmo é de rodízio. Quanto mais esfumaçada for a churrascaria melhor, porque mais perto do fogo estou sentado. Mas se eu vou a Roma, faço como os romanos. O Ed Motta acha um saco quem chega em Nova Iorque e procura a churrascaria brasileira. Eu também acho. Por isso, mesmo com um vinho a mais ou um comprimido a menos, deixa ele tocar o jazz dele em Paris, falar inglês e ser feliz assim. E o Manoel? Foi pro Céu.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Como o Cinema pode ensinar a superar uma crise


Os últimos meses têm sido especialmente difíceis para otimistas como eu. Em termos políticos o cenário não era tão sombrio há tempos no Brasil, o Governo briga com todos e mostra seus pontos fracos, está exposto com uma grande ferida aberta. Em termos econômicos, o Mundo não vai bem desde 2008 e parece que aqui e agora vivemos uma ressaca da tomada de crédito excessiva dos últimos anos. Precisamos ajustar as contas.
Existe muito pessimismo, porém as empresas precisam continuar a operar e a crescer. Nesse cenário, o que fazer primeiro? Tenho pensado muito nisso, e pensei que três filmes em especial parecem formar uma linha de raciocínio, são soluções que não falham nem mesmo em situações caóticas como uma guerra, uma ditadura ou uma baita depressão, emocional mesmo, de outrora lideres de sucesso.
1.       Bastardos Inglórios
Forme um time que possa enfrentar a situação mais difícil possível. Esse time não precisa, nem deve ser (em minha opinião), somente de talentos excepcionais, precisa de gente multifuncional e com habilidades complementares. Segue cena especial do filme, mas assista a ele todo e faça sua interpretação para o time que sua empresa precisa baseado no esquadrão formado pelo tenente Aldo Raine (Brad Pitt).
2.       NO
Invista em marketing. Um empresário do segmento digital me disse esses dias que fez uma pesquisa simples entre seus clientes mais bem sucedidos em vendas e concluiu que para cada R$ 100,00 faturados, R$ 10,00 eram gastos com marketing. Propaganda ainda é a alma do negócio, mas mais importante que isso é atingir seu público-alvo, não os que já lhe compram, mas os que precisam comprar a partir de agora por causa da crise. Marketing não é só falar de algo, é convencer, faz parte da venda. Esse filme mostra essa ideia de forma singela, segue trailer.
3.       Chef
Um ex-chefe meu dizia que quando as coisas não iam bem comigo no trabalho, eu deveria “voltar ao básico” (back to basics – ele dizia). Quando a moral da empresa é abalada pela crise, os lideres tendem a se sentirem cansados e estressados, mesmo que saibam que os problemas não são sua culpa, mas as soluções serão sempre de sua responsabilidade. Para isso, precisa-se resgatar aquela ladainha do “por que estamos aqui?”, quase existencial, mas que trará de volta a força que fez o negócio nascer, crescer e chegar até aqui. Lembrar-se de nossas habilidades mais básicas pode trazer de volta coisas boas e o melhor, faz a empresa renascer com as ideias que a fizeram começar.

O resto é como diz Woody Allen “Noventa por cento do sucesso baseia-se simplesmente em insistir”. Repita.

Foto: Universal Studios (http://www.universalstudiosentertainment.com/inglourious-basterds/)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Impeachment? Deixa pra lá!

Então essa galera quer impeachment? Quer o PMDB no Governo? O que significa a sigla PMDB, mesmo? Dá um Google aí. E o Michel Temer? Quem é esse cara? É aquele casado com uma loirona bonita? Vê se tem as fotos dela no Google. Mas a Dilma mentiu nas eleições, né? Ou é por causa da Petrobrás? Mas ela já sabia de tudo, gente? Não disse nada? Não mandou a Graça embora? Mas ela pode mandar? Dá um Google aí e vê se a presidente pode, deve ter uma lei que diz isso. Será que a Petrobrás é do povo mesmo? Por que então tem ação na Bolsa de Nova Iorque? Devia ter comprado essas ações, uma hora vai valorizar, não vai? Será que a Petrobrás pode falir? O Eike podia ter comprado. Agora não tá mais com essa bola toda. Deve estar envolvido também. Aliás, como o Eike quebrou? Foi porque disse que tinha petróleo onde não tinha? Mas a Petrobrás não é monopolista? Deve ter uma lei que diz isso. Dá um Google de novo e já aproveita para ver quanto tá o dólar. Dizem que vai chegar a R$ 3,00. Vou comprar e vender na alta então. Talvez vá para Miami em julho, será que já aproveito? Mas e a mentira da Dilma, como foi mesmo? Ela mentiu que a conta de luz ia baixar, mas subiu né? Por que subiu? Parece que tinha um subsídio que cortaram. Junto com a falta d’água, prejudicou a produção de energia e ficou mais cara, mas por que não tem energia eólica? Parece que lá no Nordeste já tem, mas não adianta? Não dá conta? Dá um Google aí e vê quando essa eólica chega aqui. Tem que ser logo. A Dilma disse também que o Brasil nunca combateu tanto a corrupção. Será mesmo? Não dá pra saber de verdade. Ela não mente sozinha, mente? O Governador mentiu também, não foi? Pelo jeito todo mundo mente para ser eleito. O povo gosta de acreditar no que não é verdade. “Se o povo não tem pão, que coma brioches” era uma frase da Maria Antonieta inventada pela turma da propaganda do Napoleão para deixar todo mundo com raiva da moça e derrubar a Bastilha, e deu certo. Liberdade, igualdade e fraternidade. Opa! Hitler fez igual, com o Goebbels, sabe? O cara que só contava a parte boa e levou a Alemanha ao Holocausto. Isso é matéria velha então? Mas e o impeachment? Deixa pra lá? Deixa.